segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Brincadeira no meio do caminho

Propor jogos e atividades no trajeto de casa para a escola, para a praia ou para qualquer outro destino é uma forma simples e gostosa de aproveitar cada minuto do tempo em família



Noêmia Lopes. Fotos Guto Seixas

“Já está chegando?” Essa é disparada a frase mais comum dita por crianças quando estão dentro de um carro. Não é para menos. Por mais confortáveis e espaçosos que sejam, os carros são onde as crianças passam minutos e, por vezes, horas cercadas de limitações: precisam ficar sentadas, com cinto de segurança, driblando a ansiedade, o tédio e o cansaço. Tudo para ser bem chato, ainda mais com a energia que elas têm guardada. Mas nem por isso esse tempo dos trajetos das viagens, e mesmo da ida até a escola ou a casa do avô, precisam ser uma tortura. Pelo contrário: quando valorizados, esses momentos se tornam ótimas oportunidades de integração entre os pais e as crianças e permitem dar continuidade, ainda que com certas adaptações, aos estímulos que elas já recebem em casa, na escola e nos demais ambientes que frequentam.

Levar as três filhas para fazer longas viagens ou simplesmente transitar por São Paulo, onde moram, nunca foi um problema para a pedagoga Lisiane Niero, 36 anos, e para o consultor de treinamento e desenvolvimento de vendas André Niero, 38. Eles sugerem passatempos para Carolina, 4 anos, Amanda, 7, e Beatriz, 10, que transformam os deslocamentos em motivo de prazer e alegria. “Temos parentes no sul do país, que visitamos de carro, e curtimos ir à praia. Sempre fizemos esses passeios, mesmo quando as meninas eram bem mais novas. Alguns amigos já se espantaram e disseram que ficariam cansados de levar filhos pequenos para rodar longos trajetos. Mas isso não acontece com a gente”, relata Lisiane.

As brincadeiras que fazem sucesso com a maioria das crianças nos automóveis envolvem músicas, histórias, adivinhas, trava-línguas, jogos com palavras e desafios de atenção (confira uma lista de sugestões nesta reportagem). Em geral, elas começam como uma maneira de aplacar a pressa de chegar. “As incansáveis perguntas do tipo ‘falta muito?’ revelam a dificuldade que as crianças têm em lidar com a noção do tempo. Incômodo, cansaço e irritação são sentimentos legítimos e brincar pode ajudar a tornar os trajetos mais agradáveis”, afirma Valéria Cristina Borsato Cantelli, pesquisadora do Laboratório de Psicologia Genética da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

E são justamente os desafios musicais que estão entre as brincadeiras preferidas da família Niero: um dos cinco fala uma palavra que faça parte da letra de uma música ou cantarola a canção apenas com sons e os demais tentam acertar o nome dela. “Também gosto de colocar músicas clássicas e pedir que as meninas fechem os olhos por alguns instantes e imaginem uma cena. Depois de um tempo, cada uma conta o que pensou”, conta o pai, André. Nas descrições, aparece de tudo: desde lugares tranquilos até pistas de alguma angústia que uma das filhas esteja sentindo no momento. As três gostam da proposta e pedem que o pai deixe as canções tocarem por mais tempo, enquanto viajam no mundo da imaginação. Os especialistas dizem que jogos como esses são ótimos para proporcionar uma chance extra de ampliação do repertório cultural e envolver crianças de diferentes faixas etárias.

Diversão a bordo

Quem aposta na estratégia de envolver a família toda nas brincadeiras logo percebe que os benefícios vão além da criação de uma atmosfera descontraída e lúdica. Outra vantagem é abrir um novo espaço de convívio familiar e de fortalecimento dos vínculos afetivos. “Enquanto jogam, pais e crianças ficam mais envolvidos e as relações entre eles, mais próximas. Não se trata, portanto, só de passar o tempo – mas de passá-lo com boa qualidade”, diz Maria Angela Barbato Carneiro, coordenadora do Núcleo de Cultura e Pesquisas do Brincar, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Tal integração é bem-vinda em toda ocasião, mas se torna ainda mais interessante nas grandes cidades, onde a rotina e o trânsito têm encurtado os momentos de convivência. É essencial, contudo, que exista uma aproximação concreta e que jogos, brinquedos e mesmo filmes em DVD funcionem como meios de fazer com que os filhos e os pais troquem ideias e vivam boas e gostosas experiências.

Outra ideia que é diversão garantida para Carolina, Amanda e Beatriz é completar histórias. Alguém inventa o começo de uma narrativa e os demais, cada qual na sua vez, continua a aventura. Quem dá início à brincadeira nunca imagina o que virá depois. “As tramas ficam malucas e muito engraçadas, e todos nos divertimos. Além disso, notamos que as crianças aprendem a respeitar as ideias umas das outras. Afinal, mesmo que não concordem com o andamento da história, precisam aceitar a contribuição de todos”, diz Lisiane. Nesse caso, está em jogo o estímulo à ampliação do vocabulário, ao exercício da criatividade e ao desenvolvimento do raciocínio lógico, uma vez que as crianças precisam considerar o contexto antes de pensar em uma sequência para a história.

Competição saudável

Outra brincadeira sempre presente nos carros de quem tem filhos envolve uma disputa: ver quem encontra primeiro a maior quantidade de determinado elemento, seja ele um objeto (como carros de uma marca específica), um lugar (postos de gasolina ou correios), um animal (cachorros e gatos, na cidade, vacas e cavalos, na estrada), uma cor ou mesmo locais curiosos escritos nas placas dos automóveis. Entre os Niero, por exemplo, a competição costuma ser por fuscas – achar um modelo preto, um tanto quanto raro, vale nada menos do que 50 pontos.

Para esse tipo de jogo, mais benefícios. “Procurar itens específicos permite explorar noções implícitas de classificação; relação entre igualdades e diferenças de elementos e conjuntos; comparação entre muito e pouco, maior e menor; propriedade de adição e contagem; entre outras”, explica Letícia Pires Dias, psicóloga e mestre em Educação na área de Psicologia, Desenvolvimento Humano e Educação pela Unicamp. Com isso, o estímulo é certeiro para a atenção, a concentração, a memória e a percepção de mundo.

Fica claro, portanto, que brincar dentro do carro, assim como fora dele, proporciona vantagens riquíssimas para o desenvolvimento infantil. Mas valem alguns alertas. As brincadeiras devem ser espontâneas e o objetivo inicial, a diversão – a aprendizagem vem logo em seguida, de carona. Brinquedos nas mãos das crianças só se não forem desmontáveis ou pontiagudos. Games, bonecos, livros e caças-palavras são boas opções. “Os pais precisam manter o cuidado ao volante e a atenção voltada para frente. O lado positivo é que, quanto mais fortalecidos estiverem os laços de convivência com os filhos, menos será necessário um objeto ou brinquedo para passar o tempo”, diz Marcia Cristina Argenti Perez, professora do Departamento de Psicologia da Educação, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara. E sempre, não custa lembrar, cinto de segurança em todos, para um trajeto divertido, educativo e seguro.

Dicas para levar na bagagem

Cantar cantigas e parlendas, como “1, 2, 3 indiozinhos”, “A galinha do vizinho”, “Feijão com arroz”...

Sortear uma letra do alfabeto e ir falando palavras que comecem com ela, de acordo com um tema específico (nomes, bichos, cidades, alimentos, frutas e profissões, entre outros). Troca a letra quando alguém falar uma palavra repetida.

Propor trava-línguas. Por exemplo: O doce perguntou pro doce / Qual é o doce mais doce / Que o doce de batata-doce. / O doce respondeu pro doce / Que o doce mais doce que / O doce de batata-doce / É o doce de doce de batata-doce.

Contar adivinhas que estimulem a associação de ideias. “Quem sou: quanto mais lavo, mais suja vou?” Resposta: a água.

Adivinhar qual caminhão será mais visto ao longo do dia – cimento, lixo, mudança, caminhão-cegonha, etc.

Descobrir o nome de um animal a partir de suas características. Exemplo: é mamífero, sabe voar, vive em cavernas e tem hábitos noturnos. Resposta: morcego.

Cantar músicas conhecidas em ritmos inusitados: “Parabéns pra você” em hip hop, “Ciranda, cirandinha” como um reggae, etc.

Inventar histórias a partir do formato das nuvens.

Jogar forca, ligue os pontos e jogo da velha em lousas mágicas.

 Colocar uma música da qual o seu filho goste tambem pode funcionar, olhe esse video acima super conhecido.

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