segunda-feira, 19 de março de 2012

Aumenta o som!

Aumenta o som!
MPB, cantigas de roda, rock, canções folclóricas, música erudita ou “Ai se eu te Pego”: o importante é ampliar o universo artístico de seu filho

Ricardo Alexandre. Foto: Edith Held/Corbis

Edith Held/Corbis
"Te dei o sol te dei o mar/pra ganhar teu coração/você é raio de saudade, meteoro da paixão/Explosão de sentimentos que eu não pude acreditar/Aaaaah, como é bom poder te amar!” Que versos malignos seriam aqueles, proclamados por tão dócil criaturinha à minha frente? Quem ousou implantar tais palavras na cabeça da “garotinha do papai”, que havia pouco cantava “Aquarela” de cabo a rabo? Com que facilidade minha filha de 4 aninhos decorara aquelas estranhas quadras? E, principalmente, oh, Senhor!, QUE MÚSICA ERA AQUELA? Era “Meteoro”, minha linda esposa me avisou, do cantor Luan Santana, de quem eu muito havia lido e nada ouvido até então. E aquele era o sinal do sucesso, do fenômeno pop, entrando pela porta de casa. E era grudento, fácil de cantar junto, de gritar a plenos pulmões do banco traseiro do carro ou passeando pelo parque, um autêntico hit de verão defendido por um menino superproduzido adotado pela máquina da indústria fonográfica, com todo o jeito de que não atravessaria o teste do tempo. Enfim, o pesadelo de qualquer pai que goste de música e queira transformar seus filhos em pequenos cognescenti das artes sonoras.
“Algumas coisas são simples, simplórias até, previsíveis do ponto de vista musical ou estético, mas, ninguém pode negar que haja ‘alguma coisa’ ali que pega as pessoas. Não deixa de ser uma virtude”, diz a educadora musical Teca Alencar de Brito, da escola Teca Oficina de Música (SP). Ela está quase me acalmando: “Isso vai acontecer pela vida inteira. Nós, adultos, também ficamos com algumas músicas na cabeça, umas se diluem; outras, não. Isso não é um problema. O problema acontece quando as crianças não têm opções para ampliar seu repertório musical, criar novas possibilidades, e acabam restritas ao que o mercado empurra a elas.”
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Enquanto converso com a educadora, o sol de verão cutuca minha testa e me lembra que dali a pouco é Carnaval e, com ele, as músicas de 2011 levadas para o trio elétrico (as apostas conservadoras recaem sobre “Ai se eu te Pego” como onipresente em todo o território nacional) e os axés produzidos especialmente para a temporada baiana de 2012 (“Leite Condensado”, com o grupo Parangolé, e “Dia de Farra e de Beijo”, de Claudia Leitte, são candidatas a hit, se é que interessa a você). Evidentemente, o fato de uma música ser pobre harmonicamente, ter letra repetitiva e óbvia, convidar à dança descerebrada e contar com aparato milionário de marketing não garante o sucesso, nem entre adultos, muito menos entre as crianças. “Na verdade, os pequenos estão alheios ao sistema”, acredita Paulo Tatit, da dupla Palavra Cantada. “Estão mais abertos ao que lhes emociona, sem se preocupar com conceitos estéticos ou com o mercado. Quem faz música para criança experimenta essa mesma liberdade, de ser instrumentalizado e aberto.” Tatit é muito direto ao sugerir qual o “mistério” das músicas que agradam às crianças (sejam canções infantis ou não, simplórias ou não). “É a melodia. Ela é que paralisa a criança, a tira do chão, que chama a atenção muito mais do que a harmonia e definitivamente mais do que a letra.” Que boa notícia: aos ouvidos de uma criança, Michel Teló e Igor Stravinsky têm exatamente a mesma chance.
“A música age no cérebro de maneira muito distribuída”, explica o neurologista Rodrigo Schultz. “Há muitas associações, de memória, de cheiros, de contextos. O sistema neurológico das crianças, ainda em formação, cria raízes que vão durar toda a vida. É impressionante, por exemplo, como vítimas de Alzheimer reagem a músicas que ouviram em sua infância.” Schultz, que trabalha no Instituto da Memória da Universidade Federal de São Paulo, lembra da importância do estímulo musical desde cedo: “Até a adolescência, as redes neurais ainda estão sendo criadas. Por isso, dá para concluir que o cérebro de alguém que foi estimulado por variados tipos de música vai se tornar muito diferente daquele exposto apenas ao que vê na televisão”.
É aí que entra também a responsabilidade da escola, segundo Marcelo Cunha Bueno, diretor pedagógico da escola Estilo de Aprender (SP). “Devemos desenvolver a linguagem artística da criança como um todo, alinhar o senso estético relacionando à música com a fotografia, com o cinema, com as artes plásticas”, diz Marcelo, também colunista da CRESCER. “A cultura é a afirmação da escolha. Não tem problema gostar de Xuxa ou do Justin Bieber. Nós gostamos de Antonio Nóbrega, Lia de Itamaracá, Hermeto Pascoal, ciranda e canções populares... e o aluno, o que acha? Essa discussão é fundamental, porque ajuda a dar oportunidade de escolha às crianças.”
Foi exatamente esse raciocínio que levou o então presidente Lula a sancionar em 2008 a Lei 11.769, que estabelecia a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas de educação básica. Depois de três anos de preparação curricular, está previsto para este ano letivo a introdução da disciplina. Mas ainda há várias indefinições sobre o tema, como ficou claro durante um encontro da Frente Parlamentar em Defesa da Cultura com a ministra da Cultura Ana de Hollanda, em agosto último. Os pontos mais nebulosos são a respeito da formação dos professores e o enfoque do material didático. “É preciso formar os professores e mobilizar as escolas, dar recursos até que todos saibam usar da música para ensinar as crianças a enxergar as sutilezas, os detalhes, e até mesmo geografia e história, por exemplo”, afirma Marcelo.
De fato, entre todos os educadores e artistas ouvidos por esta reportagem, duas opiniões foram unânimes. A primeira, de que cabe aos pais o trabalho de incentivar a ampliação do repertório musical dos filhos. A segunda, de que a educação musical ensina os pequenos a desenvolver sua sensibilidade e capacidade de discernimento. “O jeito de ouvir música atualmente é muito diferente de há 20 anos, na época do disco de vinil”, ressalta Teca Alencar de Brito. “Mais do que nunca, a música chega às crianças já envolta no clipe, no filme, no desenho, na roupa, na dança. A missão do educador musical é ensinar a ouvir de um jeito menos fisiológico e mais consciente. Apurar, atentar para os detalhes, trazer à tona elementos que passariam despercebidos. Isso vale para a vida.”
“Até a adolescência, as redes neurais ainda estão sendo criadas. Por isso, dá para concluir que o cérebro de alguém que foi estimulado por variados tipos de música vai se tornar muito diferente daquele exposto apenas ao que vê na televisão”, diz Rodrigo Shultz, neurogista da Unifesp.

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