ENTREVISTA
O aluno não tem culpa se alguém paga mal ao professor, diz Mozart Neves
O presidente do Todos Pela Educação acredita também que gestores públicos podem dar grandes saltos na educação através de um planejamento plural
Mozart Neves é presidente do Todos Pela Educação
Aos 55 anos, o professor recifense Mozart Neves Ramos é um obstinado defensor do ensino de qualidade no País em mais de 30 anos de trabalhos dedicados à educação. Reitor da Universidade Federal de Pernambuco por oito anos (1996-1999 e 2000-2003) e secretário estadual de Educação entre 2003 e 2006, ele afirma que foram fundamentais na sua formação os estudos do filósofo Bertrand Russell e do escritor russo Dostoiévski, tanto na formação acadêmica como engenheiro químico quanto na que chama de formação cidadã. Mozart divide a agenda entre o Recife, devido às aulas na graduação, mestrado e doutorado na área de química da UFPE, e São Paulo, onde realiza as atividades do Programa Todos Pela Educação, do qual é presidente.
Com números referentes à Educação Básica do Brasil na ponta da língua e as respostas longas que lhes são características, Mozart Neves, que também é membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) e da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, conversou sobre a importância do professor e da família no aprendizado das crianças e jovens, e como os gestores públicos podem dar grandes saltos na educação, através de um planejamento plural.
JC Online - Qual a importância da educação básica para o desenvolvimento de uma sociedade?
Mozart Neves - Em primeiro lugar a oferta de educação básica e o acesso a ela estão previstos na constituição. É um direito de todo cidadão ter acesso à educação básica. Ela é a base, como o próprio nome diz, para o próprio desenvolvimento humano. Sem essa formação mínima, em geral, o cidadão fica alijado de exercer a sua própria cidadania.
O professor desempenha um papel fundamental no processo ensino-aprendizagem. A baixa qualidade da educação em países como o Brasil deve-se à desvalorização desse profissional?
M.N. - O papel do professor é central, mas não é o fim. Parece um antagonismo. Na verdade, sem um professor qualificado, países como Finlândia, Cingapura e Coreia não estariam no topo. Por quê? Eles conseguem atrair os melhores alunos do ensino médio para a carreira do magistério, é como medicina aqui, porque eles sabem que somente com excelentes professores vão poder ter excelentes alunos. Esses países pagam salário inicial atraente para trazer os melhores alunos do ensino médio, então o jovem que quer ser professor nesses países vê nessa carreira uma perspectiva ao longo de sua vida. Salário inicial atraente, carreira promissora e formação inicial sólida foram decisivos para atrair pessoas qualificadas para as salas de aula nesses países.
O que não é o caso do Brasil, onde a formação é muito ruim. E, por fim, as condições de trabalho. É preciso criar as condições para a aprendizagem; dar aos professores essas condições, mas também cobrar deles o seu compromisso no processo de aprendizagem. O professor exerce um papel determinante, mas não se conclui nele, se conclui no aluno. Eu sou professor há 33 anos na Federal (UFPE) e sempre digo aos meus alunos: Não adianta vocês gostarem da minha aula se vocês não estiverem aprendendo. Só faz sentido eu estar aqui se vocês aprenderem.
Como o professor de escola pública pode driblar as dificuldades de baixos salários e precárias condições de trabalho para cumprir com o seu papel?
M.N. - Em primeiro lugar a pessoa tem que querer ser professor. Não adianta ser professor porque é fácil de ingressar na carreira porque tem, em geral, até mais vagas. Quando você gosta do que faz, você luta nos dois fronts: uma é a luta boa em sala de aula para fazer com que os alunos aprendam com criatividade e a outra é na hora das reivindicações, nas pautas de greve. Eu acho que o aluno merece respeito, não é ele o culpado se alguém paga mal ao professor. O professor que falta simplesmente porque tem outros compromissos e a escola paga mal ele é vilão da educação porque eu tenho que lutar para melhorar o meu salário, mas eu não posso lutar deixando de fazer aquilo que eu me comprometi com meus alunos.
Pernambuco paga um dos piores salários do Brasil. Alunos de licenciaturas na UFPE me dizem que não têm estímulo para passar por toda uma seleção no vestibular e ganhar R$ 900, R$ 800. "Por que eu vou me submeter a dar 40 horas por semana para ganhar R$ 800 e o pior, sem perspectiva de carreira ao longo da minha vida?"
M.N. - Se o Brasil nos próximos anos não resolver a qualidade da Educação que passa, necessariamente, pela valorização do professor, se a gente não resolver essa equação do professor de atrair jovens, de criar mecanismos de carreira para esses jovens, não vai ter gente em sala de aula. Isso é uma vergonha para um País que hoje é líder na produção científica mundial na América Latina, que forma 10 mil doutores por ano e produz 30 mil artigos em revistas indexadas.
Como a família se insere nesse contexto?
M.N. - O papel da família é tão importante quanto o da escola. Mãe e pai têm obrigação de tirar um pouco do seu tempo pessoal para acompanhar a educação dos seus filhos. Hoje as família estão legando esse papel muito à escola. Você não educa uma pessoa somente colocando-a na escola; é preciso que em casa também haja o processo educacional. E todos os estudos mostram que, quando uma criança é educada nesse processo escola-casa, tem um desenvolvimento social muito melhor. A família tem que acompanhar esse processo, inclusive, na escola. Verificando a escola do ponto de vista da gestão, se o professor está passando dever de casa, indo para reunião de conselho de pais, cada um tem que fazer a sua parte.
Se todos têm interesse em melhorar a educação, quais as dificuldades encontrados pelos gestores públicos?
M.N. - Eu vou fazer uma comparação e falo sem nenhuma preocupação, pois não sou político; sou técnico em educação. Eu acho que Pernambuco tomou uma estratégia correta ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, porque você não gera riqueza se não tiver desenvolvimento econômico. Agora, essa perna cresceu muito. Não é à toa que Pernambuco está crescendo muito mais do que o Brasil. Só que agora a gente tem que olhar o social. Quando houve a tomada de decisão correta de colocar toda criança na escola, lamentavelmente, como tudo no Brasil, não foi feito um planejamento de médio e longo prazo. Muda o governo, mudam os planejamentos. Quem paga não é o governo do dia, quem paga é a população. Eu tive muitos problemas na área financeira na minha gestão, e foi por isso que fui buscar empréstimo no Banco Mundial, que é o que hoje está servindo ao atual governo. O próprio Danilo [Cabral, ex-secretário de Educação de Pernambuco] não só usufruiu, mas ampliou os recursos.
O próximo governador, quem quer que seja, se quiser mesmo fazer uma grande diferença, é só convidar os concorrentes para fazer um Pacto Pela Educação do Estado. A partir do Plano Nacional, construímos um Estadual e, a partir daí, elaboramos um planejamento de pelo menos 10 anos. E que esse planejamento, construído como uma mesa plural, mas vendo aquilo que é prioridade, não para um segmento, não para o sindicato, não para o governo, não para o professor, mas o que é bom para Pernambuco na área de educação. Assim, você consegue crescer, independente de quem seja o governo.
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